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Maligno

1.1- Terra Nova
 A Jornada Secundária dos Quitébius

 

Trália, 994 AEC...

As primeiras embarcações de Nomastar finalmente atracam na região costeira leste do novo continente. Essas embarcações de pequeno porte superavam a velocidade dos grandes navios nomasterianos justamente por que transportavam apenas o indispensável de tripulação que prepararia a chegada do restante do povo ainda por vir. Esse pequeno grupo era denominado “Semeadores” (batedores), visto que desbravariam e definiriam um pequeno perímetro de povoamento da região próxima onde atracariam.

 

Nomastar, no idioma comum falado pelas suas três tribos (Protar, Níbia e Laian) traduzido significa “nômades desertores”, uma denominação indubitavelmente propícia á nação por duas principais razões: (1) a deserção de seu próprio povo em Númaior (2) os meses de nômades nos mares que os carregaram á “Terra Nova” (os nomasterianos ainda não haviam batizado o novo continente de Trália).

 

Com o decorrer dos dias novos navios nomasterianos atracariam com o restante da frota contendo todos os pertences pessoais, mantimentos praticamente escassos e matéria-prima para futuros abrigos que transportavam juntamente com o restante da massa de gente nos mesmos.

Os Semeadores eram um grupo composto de nomasterianos jovens solteiros e casais sem filhos pré-designados para essa função específica de desbravamento e semeadura das primeiras formas de vida inteligente que povoariam Terra Nova, ou Trália. Dentre esses haviam tanto militares como civis.

 

Como os nomasterianos já tinham um conhecimento antecipado da existência desse continente?

 

A Jornada Secundária dos Quitébius não fora a primeira ocasião em que Nomastar havia aventurado-se ao oceano rumo ao desconhecido. A Jornada Primária dos Quitébius já havia antecedido á tudo isso e preparado o caminho para a segunda jornada.

 

Quitébius era uma família influente e poderosa eleita pelo Governo Provisório de Nomastar para comprovar a existência desse novo continente; tal jornada temporária tinha o propósito específico de adquirir provas para definir se o novo continente debatido em questão era real ou fictício.

Ruínas perdidas

 

Semanas se passaram desde que os Semeadores nomasterianos aportaram pela primeira vez em Terra Nova.

 

Esses laboriosos Semeadores já haviam mapeado uma porcentagem significativa das regiões mais profundas e relvosas próximas á praia em que haviam aportado. Também já haviam registrado mapas das regiões desbravadas bem como intrigantes e emocionantes relatos que aguardavam ansiosamente reportar aos líderes governantes ainda por vir.
Parte dos Semeadores dedicavam-se á construção de estruturas provisórias para eles próprios e para todo o restante necessário estipulado, e alguns devotavam-se á coleta, pesca e caça.

 

No início da quarta semana que fecharia aquele primeiro mês em Terra Nova, as grandes fragatas e todo o restante da frota marítima de Nomastar já avistavam Terra Nova e a exata costa do continente onde se encontravam os pequenos navios dos seus Semeadores.

 

Obviamente não fora coincidência esse encontro, todo o plano de navegação já havia sido previamente estipulado, estudado e seguido minuciosamente por toda a frota nomasteriana.

 

O Grande Mestral (liderança do Governo Provisório) mal pisou em Terra Nova e já foi acolhido calorosa e desesperadamente por seus Semeadores do grupo “Ponta-de-Lança” (desbravamento, mapeamento e registro).
Os Mestrais (líderes governantes), de cada uma das três tribos nomasterianas passaram a estudar avidamente os registros dos Semeadores Ponta-de-Lança e encontraram relatos misteriosos e perturbadores.

 

Cada Mestral era definido tanto como Mestral-Tribal como conselho (ex: Mestral Protariano) quanto Mestral-Membro como indivíduo (ex: “Mestral” + “nome pessoal”).

 

Um famoso copista daquele século, Babagnal Vriz-Mêmis, alegou que preservou os dados dos manuscritos originais dos Semeadores Ponta-de-Lança com total fidelidade em suas cópias. Essas cópias fazem referência ao inesperado encontro dos desbravadores nomasterianos com “extraordinárias estruturas de blocos de pedras há muito abandonadas, cobertas por vegetação nativa e adornadas por cortinas de teias de aranhas e tapetes de densa poeira.”

 

Os Ponta-de-Lança também incluíram em seu registro que aquelas estruturas assustadoras não continham relato em parte alguma do misterioso sumiço de seus habitantes.
Dentro das estruturas se encontravam somente objetos como armazenadores de líquidos, mantimentos e comestíveis escavados em rocha maciça, indício de uma civilização que outrora habitou Terra Nova por algum período que antecedeu Nomastar.

 

Todavia não se encontravam nem registros, nem ossadas pertencentes aos habitantes nessas estruturas. E esse mistério indignava e tornava-se cada vez mais inconcebível e intolerável entre os Mestrais nomasterianos.

 

1.2- as raízes do mal
 “Vozes no Silêncio”

 

Quando os líderes governantes nomasterianos tomavam decisões com base individual de acordo com as necessidades de sua própria tribo então eles agiam como Mestrais, ou Mestral-Tribal.
O Grande Mestral era mais abrangente, reunindo todos os Mestrais das três tribos de Nomastar com o fim de tomar decisões unificadas pensando no melhor de cada tribo.

 

Os Mestrais, ou Mestrais-Membros da tribo nomasteriana de Protar eram os seguintes, em ordem de destaque: Maalílio Têbius e seus dois filhos Dívius Têbius e Oárius Cílio Têbius, Doolibaal Tílio e seu filho Bolibama Tílio; ao todo eram cinco os Mestrais de Protar.

Não existe registros detalhados em Protar sobre os Mestrais de Níbia e Laian. Apenas sabe-se que eram 13 os Mestrais de Laian e 47 os de Níbia.

 

Os Mestrais de Protar em comum acordo com os Mestrais das outras duas tribos resolveram iniciar uma investigação cabal e minuciosa dos inquietantes mistérios daquele povo fantasma e suas estruturas abandonadas.
Mas tudo o que conseguiram revelar foram os motivos do porquê não haverem manuscritos de registros do “Povo das Sombras” (assim decidiram batizá-los).

 

O Povo das Sombras não tinha conhecimento da escrita, os mesmos utilizavam figuras pitorescas pintadas em paredes de suas próprias casas ou em amplas estruturas que devotavam suas paredes exclusivamente para registro. Doolibaal Tílio e os dois filhos de Têbius solucionaram esse mistério ao resolverem arrancar a vegetação que cobria as paredes de uma das casas do Povo das Sombras.

 

O Grande Mestral, por sua vez, consentiu em batizar a forma de comunicação por escrita com imagens nas paredes de “Xeliah-Zoz”; que traduzido da língua morta nomasteriana para os idiomas atuais significa literalmente: “Vozes no Silêncio”.

 

Ainda assim decodificar aquela linguagem tornou-se um fardo demasiadamente fatigante e insolúvel para toda Nomastar, ninguém fora capaz de traduzir o idioma; ora, as figuras não representavam coisa alguma que pudesse ser compreendida!

 

“O saber excessivo... o saber nocivo!”

 

Uma jovem donzela caminha próxima dos limites definidos por Nomastar como suas fronteiras. Trata-se de Sissi Têbius, filha única de Maalílio Têbius, uma donzela insaciavelmente curiosa. Ela está ao lado de uma torre de vigia nomasteriana, e o vigia coincidentemente está enamorado dela... ela não partilha do mesmo sentimento, mas tem conhecimento do desejo do vigia e decide usar isso a seu favor.

 

Após seduzir o rapaz da torre, Sissi convence-o de acompanhá-la além dos limites da fronteira e guardar segredo do que encontrassem lá. O jovem cai na artimanha da donzela e ambos partem rumo ao desconhecido, além dos limites da fronteira nomasteriana sem a devida autorização de seus líderes.
Durante o trajeto, Sissi tropeça em uma raiz e rola para dentro de uma cratera, apenas com ferimentos leves. O apaixonado vigia perde-a de vista pelo fato de a vegetação rasteira ser alta e densa, motivo pelo qual ambos não viram a raiz em que Sissi tropeçou. Sissi é valente e logo se recompõe, mas assim que ergue seus olhos a primeira coisa que fixa-os é em um esqueleto apavorante! Sissi logo se vê cercada por esqueletos de homens e mulheres que começam a cair sobre ela enquanto se debate em terror e gritos.

 

O vigia parte em direção de sua amada com base na gritaria aterrorizante dela para salvá-la. Ele se joga na cratera em que Sissi foi lançada e logo a encontra passando a acalmá-la e consolá-la.
Enquanto Sissi se acalma nos braços do denodado vigia, provavelmente vêm-lhe á mente as palavras de sabedoria contidas nos rolos do Proto-Código (escritos sagrados internos da tribo protariana): “O saber excessivo... o saber nocivo!”.  Entretanto, a mente do vigia passa a ser assolada por outro tipo de pensamento ao fitar as ossadas ainda intactas não desmanteladas pela euforia apavorante da donzela... um pensamento mais profundo do que a cova dos mortos...

Ervas Efêmeras

Após meses de segredos Sissi Têbius é convocada para comparecer perante o Grande Mestral urgentemente; parece que seu apaixonado parceiro de confidências havia dado com a língua nos dentes.

 

Sissi decide confirmar as informações que o jovem vigia relatou sobre a experiência de ambos fora dos limites da fronteira. Mesmo após receber um golpe na face por seu pai por sua atitude arriscada e rebelde, no íntimo Sissi sente-se feliz porque sabia que o Grande Mestral iniciaria uma investigação para solucionar o novo mistério das ossadas além das fronteiras.

 

Mas o que perturbou o íntimo do jovem nos esqueletos intactos que fitava?
Ele reportou perante todos os Mestrais de Nomastar que os esqueletos portavam instrumentos de corte e perfuração, e os mesmos haviam perfurado-se uns aos outros e alguns a si próprio; uma mescla de suicídio coletivo com assassinatos em massa.

 

O Grande Mestral aprovou oficialmente em unanimidade estender os limites da fronteira para abranger a misteriosa área das crateras com ossadas. Mas apenas os Mestrais protarianos corajosamente se voluntariaram para a missão, o restante dos Mestrais das outras duas tribos estavam demasiadamente temerosos em averiguar pessoalmente.
Da tribo protariana pelo menos 2 Mestrais deveriam ficar e não se aventurar na missão para cuidar dos assuntos internos da tribo e da nação nomasteriana.

 

Maalílio Têbius decidiu enviar seus dois filhos e apelou para Doolibaal Tílio ficar ou então poupar seu filho da jornada. Doolibaal resolveu então deixar seu filho para trás.

 

O regresso da comitiva foi triunfal! Todos estavam em excessiva euforia e grande êxtase! Por quê?

 

Em algumas das crateras se encontravam plantas de aspecto incomum jamais imagináveis... como se não pertencessem àquele mundo (e/ou planeta)! Durante a investigação a impetuosa filha de Maalílio havia arrancado uma dessas folhas e ingerido para sentir o sabor, pois exalava um aroma delicioso. Assim que todos passaram a fitá-la temerosos pelo resultado desconhecido que essas plantas poderiam ter no organismo da donzela, Sissi ergueu a sua voz e passou a entoar belíssimas melodias, tanto na riquíssima letra como em seu próprio tom de voz celestial. A donzela já tinha uma bela voz, todavia graças á uma enfermidade nas vias respiratórias havia perdido seu dom para sempre desde então. Como Sissi regenerou-se assim tão abruptamente? Seria um resultado benéfico proporcionado pela planta que ingeriu? Era o que aparentava.

 

Os irmãos dela, Dívius e Oárius Cílio ordenaram que mais ninguém ingerisse das plantas. Também ordenaram aos carregadores que colhessem o maior número de folhas das plantas que conseguissem e levassem consigo em retorno á Protar-Prime (cidade real protariana; ainda nos estágios iniciais de construção). Doolibaal, presente entre eles, se opôs ao questionável plano dos filhos de Têbius; Doolibaal desejava investigar mais a fundo os efeitos posteriores das plantas e se haveria algum efeito colateral prejudicial. Mas todo o povo tomou o lado dos Têbius como uma só voz e Doolibaal teve de acatar a precipitada decisão unânime, ainda que a contragosto.

 

Durante quinze longos anos o povo nomasteriano vivia em absoluta segurança, vitalidade e crescimento. Em cada nomasteriano uma das plantas ocasionava um resultado específico: para alguns a força era incrementada, outros era a velocidade, outros era a saúde, outros era no combate, outros eram em dons e talentos específicos como arquitetura, artes, plantio, música, outros era na longevidade. Mas Doolibaal ainda opunha-se em seu íntimo e recusava-se a compartilhar daquelas tolas alegrias que todos obtinham das plantas que ele decidiu batizar de “Ervas Efêmeras”.

1.3- De Tribos á impérios
 Os perturbadores contatos com os “Malignos das Sombras”

 

“O meu parecer referente a explanação mais propícia do termo empregado por Doolibaal Tílio ás Ervas Efêmeras é sem sombra de dúvida em resultado dos efeitos ilusórios ou temporários que proporcionavam aos seus hospedeiros ou usuários.” – Adílio Falk, autor e escritor da maior obra de referência e pesquisa sobre Protar: “Nomastar, Protar ou Hegemômia?”

Doolibaal Tílio conseguiu demonstrar uma resistência extraordinária á tentação de usufruir das bênçãos geradas pelas Ervas Efêmeras. Também havia influenciado muitos que o prezavam na mais alta estima a não fazer uso das plantas, incluindo seu próprio filho Bolibama Tílio, que apesar de avidamente desejá-las ao mesmo tempo mantinha firme posição em obediência á seu pai.Quinze abençoados anos se passaram desde o dia em que se obteve conhecimento das Ervas Efêmeras e não se relatava em parte alguma do domínio nomasteriano efeitos colaterais prejudiciais. Mas assim que se iniciou o décimo sexto ano, em 978 AEC, o primeiro caso prejudicial fora finalmente relatado.

 

Tratava-se de um dos filhos de Maalílio, o mais novo Oárius Cílio. O jovem varão alegou que esteve em contato durante um breve período de tempo em que esteve em transe com uma criatura apavorante e de intenções perversas.

 

O Grande Mestral tinha ciência dos hábitos descomedidos de Oárius no que se referia ao abuso indiscriminado de exageradas quantidades de Ervas Efêmeras que passou a desenvolver. Por isso tomaram seu relato como uma ilusão gerada pelas quantidades excessivas das plantas. E após tranquilizarem-no o alertaram a cortar ou reduzir o uso de sua quantia das Ervas.

Na noite seguinte Oárius teve um sonho ainda mais aterrorizante. O ser sombrio o havia contatado novamente e dessa vez ameaçou manipular o próprio corpo de Oárius e tirar a vida dele com as próprias mãos de seu hospedeiro carnal. Novamente após relatar o ocorrido ao Grande Mestral, foi avisado de maneira mais severa nessa ocasião á cortar completamente o uso das Ervas e isolar-se da comunidade por um curto período até se recompor ao estado sóbrio.

 

No dia seguinte Oárius Cílio Têbius amanheceu morto, degolado por um punhal que estava em suas próprias mãos; embora difícil de crer mas as pistas irrefutáveis o apontavam como o principal assassino de si mesmo, ou seja suicídio.

 

A notícia perturbou excessivamente todo o Grande Mestral. Doolibaal Tílio e seu filho aproveitaram o suicídio de Oárius Cílio para se manifestarem contra o uso das Ervas Efêmeras e o banimento total delas do domínio nomasteriano para todo o sempre. Surpreendentemente nenhum Mestral, incluindo a própria família de Oárius, levaram a petição de Doolibaal em consideração. O próprio pai de Oárius, Maalílio, apresentou desculpas para o comportamento errático de seu filho. Segundo ele Oárius terminou a própria vida unicamente porque não conseguiu moderar seu uso das Ervas e muito menos conseguiu desligar-se delas completamente.

 

Novamente Doolibaal Tílio foi silenciado e decidiu acatar o conceito inadmissível, porém unânime de seus irmãos Mestrais.

Contudo a sabedoria indiscutível estava tomando o lado de Doolibaal e seus apoiadores, quando mais casos de visitas das criaturas malignas passaram a pulular cada dia mais entre as três tribos de Nomastar.

 

Uns relatavam que os “Malignos das Sombras” (conforme decidiram batizá-los) os haviam ameaçado de tirar a vida deles utilizando eles próprios como seus assassinos, semelhante ao caso de Oárius Cílio, enquanto outros relataram que um parente ou conhecido deles seria dominado e usado como instrumento da matança. Alguns dias depois relatos de assassinatos cumpriam-se exatamente em conformidade com as ameaças dos Malignos das Sombras.

 

Nas três tribos nomasterianas a crise de violência era a mesma. Alguns Mestrais como Maalílio e seu filho mais velho decidiram apoiar Doolibaal na expurgação absoluta das Ervas Efêmeras, mas temiam uma represália dos Malignos das Sombras. Infelizmente seus temores se concretizaram, e na noite seguinte assassinaram-se uma ao outro, pai e filho. Na mesma noite Sissi Têbius tirou a vida da própria mãe enquanto estava em transe e assim que acordou e avistou sua mãe morta e um punhal coberto de sangue em suas mãos, não suportando a tristeza tirou a própria vida ainda consciente.

Assim morreram toda a família de Maalílio Têbius, assassinados por eles mesmos sob o efeito do transe dos Malignos das Sombras: Maalílio Têbius aos 92 anos, sua esposa Nãe Nana Têbius aos 53, seu varão mais velho Dívius Têbius aos 37 anos, o mais novo Oárius Cílio Têbius aos 31, e a filha única Sissi Têbius aos 30 anos.

Resistência

O caos tornou-se generalizado nas três tribos nomasterianas. Entretanto, parece que os Malignos das Sombras por uma razão desconhecida não entravam em contato com todos de Nomastar. Por exemplo, Doolibaal nunca recebeu visita em hipótese alguma desses seres muito menos ameaças deles. Seu filho Bolibama a mesma coisa, e todos os que se manifestavam contra o uso das Ervas Efêmeras também eram deixados em paz pelas criaturas.

Bolibama Tílio raciocinou com o pai e todos os outros Mestrais intocados sobre a possibilidade das Ervas Efêmeras serem o canal condutor pelo qual os Malignos das Sombras tinham acesso á suas vítimas. E o método mais eficiente seria quebrar esse elo por cremar todas as Ervas de todo o domínio de Nomastar, a começar pela própria tribo protariana.

Mas e quanto aqueles que já tinham feito uso das Ervas e ainda não haviam relatado ameaças dos Malignos? Foram ordenados a cortar o uso delas definitivamente daquele dia em diante, depois eram acorrentados e amordaçados enquanto dormiam para impedir que se auto-flajelassem durante as manifestações desses Malignos, e finalmente vigiados com máxima atenção durante todo o tempo de sono até se obter a certeza de que estavam livres por definitivo dos resíduos restantes das Ervas em seus organismos.


Bolibama Tílio estava absolutamente certo em suas crenças e métodos de aplicação das mesmas. Em poucos meses, Protar inteira foi libertada definitivamente tanto das Ervas Efêmeras quanto das manifestações pérfidas dos Malignos das Sombras.

Agora Protar planejava iniciar uma nova campanha contra as criaturas malditas: Socorrer seus irmãos das outras duas tribos e expulsar os Malignos das Sombras de todo o domínio nomasteriano por toda a eternidade.

“Nem todo escravo deseja ser livre...


Não se sua liberdade é interpretada como forma de escravidão.”

Em 976 AEC, Doolibaal Tílio, seu filho Bolibama Tílio, e muitos outros protarianos, incluindo um jovem vigia que havia jurado vingar sua amada morta pela influência dos Malignos, iniciaram uma campanha de expurgação completa dos territórios ainda infectados de Níbia e Laian.
Os Mestrais de ambas as tribos decidiram cooperar em missão conjunta sob as orientações de Protar. Em poucos meses toda Nomastar ficou totalmente purificada tanto das Ervas como das manifestações e influências dos Malignos.

No ano seguinte os Mestrais de Níbia apresentaram uma petição questionável ao Grande Mestral de Nomastar. Segundo Níbia, os Malignos das Sombras não se manifestaram durante os primeiros quinze anos de uso controlado das Ervas Efêmeras, assim que o aumento dos níveis de consumo das plantas foi liberado oficialmente abriu-se um portal de acesso entre as pessoas e as criaturas. Em suma, Níbia sentia carência dos efeitos benéficos das Ervas Efêmeras em seus habitantes e desejava a liberação de uso controlado novamente para seus habitantes.


A petição de Níbia, embora coerente, foi violentamente negada! Os Mestrais de Protar e Laian concordaram com os argumentos apresentados, mas não desejavam expor Nomastar e nenhuma de suas tribos novamente ao alcance dos Malignos das Sombras nunca mais.

Como medida de precaução Protar e Laian uniram forças e ergueram uma gigantesca muralha que circundava toda a região em que se encontravam e se concentravam as Ervas Efêmeras, e posicionaram torres e pesada guarda para impedir o acesso de qualquer nomasteriano ás plantas. A magnífica construção encerrou-se em 944 AEC. Mais tarde essa muralha ficou conhecida como Muralha da Perdição (resistindo até os dias atuais).
Níbia não aceitou a posição de precaução, porém ao mesmo tempo arbitrária, de suas outras tribos-irmãs e declarou oficialmente guerra á Protar e Laian em 929 AEC, pois desejava por as mãos nas Ervas Efêmeras á todo custo.

Protar e Laian fizeram poucos registros da campanha militar contra Níbia conhecida como “A Irmandade Dividida”, e quase todos esses registros se perderam pelo descaso e desinteresse por eles. Porém um fragmento de registro contendo a data final da campanha: 923 AEC, também preservou uma pequena frase do discurso de Doolibaal para todos os Níbios capturados que se negavam a abandonar sua posição de rebelião. Assim que se desse término ao discurso, toda Níbia seria expulsa do domínio nomasteriano definitivamente e se teimassem em regressar seriam tratados como invasores inimigos e seriam eliminados imediatamente sem misericórdia. O fragmento do discurso registra apenas a breve e seguinte mensagem do discurso de Doolibaal, que segundo a concordância de uma ampla gama de historiadores modernos fora retirada do próprio acervo do Proto-Código protariano: “... Nem todo escravo deseja ser livre... não se sua liberdade é interpretada como  forma de escravidão...”.

 

Na década seguinte Doolibaal Tílio trabalhou em um projeto audacioso que passou a apresentar no Grande Mestral, atualmente composto apenas de Mestrais de Protar e Laian. De tempos em tempos Doolibaal apresentava a proposta de Protar e Laian abandonarem suas origens nomasterianas e fundirem-se em um único império, uma única Protar. A proposta de eliminar Nomastar do cenário trálio (nessa época o termo Terra Nova já havia sido substituído por Trália) agradava Laian, todavia não partilhavam do desejo de tornarem-se protarianos abandonando suas origens laians.
Em uma dessas insistentes ocasiões de persuasão para com Laian, o Mestral protariano Doolibaal Tílio perdeu o controle e acendeu a sua ira contra os Mestrais de Laian, injuriando-os e ameaçando-os severamente. Até que esses se sentiram feridos no íntimo e partiram para cima de Doolibaal matando-o ali mesmo naquele mesmo dia, o segundo dia do quarto mês de 916 AEC.

 

Naquele mesmo dia, o filho de Doolibaal, Bolibama Tílio apoiado por todos os outros Mestrais de Protar declararam guerra á Laian oficialmente.

No segundo ano da guerra, Protar já havia dizimado 513.000 das forças armadas de Laian, restando apenas 24.000 soldados encurralados em 3 cidades Laians restantes. O efetivo militar de Protar totalizava 709.000 que puxavam da espada.

 

Quando os exércitos protarianos finalmente cercaram as três últimas cidades laians, Bolibama Tílio em consentimento com os outros Mestrais ordenaram uma rendição pacífica de Laian. Eles não seriam escravizados nem molestados, mas deveriam deixar o território protariano e habitarem qualquer território trálio que desejassem fora dos limites de Protar. Laian concordou e partiu em paz deixando Protar para sempre.

No ano seguinte um dos Mestrais de Protar, um jovem guerreiro protariano que sempre lutava lado-a-lado com Bolibama Tílio como seu escudeiro pessoal, aconselhou sabiamente o Grande Mestral que incluía agora somente Protar a dissolver o sistema de governo por Mestrais e transferir o poder de governo para apenas um único homem, um único rei: Bolibama Tílio. A proposta agradou a todos os outros Mestrais de Protar, pois obtiveram por experiência própria a certeza de que Protar necessitava de um único governante e que Bolibama Tílio era o candidato perfeito para o trono.

 

Em 913 AEC, Bolibama Tílio, filho único de Doolibaal Tílio assumiu o trono de Protar passando a governá-la como Bolibama Tílio I, Rei de Protar.
Tílio I, promoveu o jovem ex-Mestral que fez propaganda dele para rei e que ao mesmo tempo era seu melhor amigo, para o posto de seu Chefe do Exército. O nome desse varão: Gonquer Zá-Sezano, filho do outrora apaixonado por Sissi Têbius, Malogue-Bramer Zá-Sezano.

 
1.4- a verdadeira origem de protar
 Nomastar Telos

 

O alvorecer do último milênio AEC em Númaior (continente que semearia a civilização em Trália) representava ao mesmo tempo a ascensão do primeiro milênio trálio...

Havia um reino em Númaior, estimado aproximadamente de 1100 á 1010 AEC, que se encontrava á beira da ruína iminente. Desafortunadamente nenhum registro trálio detalha especificamente sobre esse reino condenado. Todavia, alguns nomes foram registrados como habitantes nativos desse continente, sendo que o mais citado deles chamava-se Nomastar Telos, um aristocrata da mais alta classe, dotado de fortunas imensuráveis. Sua riqueza pessoal era tanta que a mesma lhe conferia poderes como influência direta sobre seu próprio rei, que o temia e submetia-se á sua vontade. Nem esposa, nem filhos são citados por nome e número.

O relato vago e pouco conciso de um escriba pessoal anônimo da família Telos aponta para uma época anárquica de tribulações de toda sorte nesse reino, tais como escassez de víveres, pestes, pragas e catástrofes naturais das mais variadas que aparentemente lançaram o povo em um estado de insanidade generalizado. Talvez um prelúdio do que muitos considerariam como Fim dos Tempos ou Fim do Mundo!


A família Telos teve de partir o mais depressa possível e largar todas as suas propriedades e os bens que não puderam carregar, deixando-os para as multidões que entorpecidas com o desequilíbrio mental e emocional investiram ferozmente para cima de tudo o que a família Telos possuía, desejando até mesmo ceifarem-lhes suas vidas.

Finalmente, os Telos acompanhados de todos os seus servos e servas que mantiveram sua lealdade firme para com o amo, encontraram uma região ainda inexplorada e intacta tanto das catástrofes da natureza quanto da violência de seus conterrâneos dementes.


Aquele pequeno grupo em algumas décadas converter-se-ia em uma nação que levaria o nome do próprio ex-aristocrata furtivo: Nomastar.


Quanto aos seus servos, os mesmos seriam eximidos de suas funções servis pelo seu próprio amo que os trataria daquele tempo em diante como irmãos de sangue. E visto que esses ex-servos compunham três famílias distintas, porém unidas como uma, as mesmas converter-se-iam em três tribos assim que Nomastar ascendesse oficialmente.

Cada tribo nomasteriana fora rebatizada de sua denominação de origem (?) para (1) Protar: “Renascer” (2) Laian: “Recomeço” (3) Níbia: “Novos Tempos”. Cada uma delas elegeu um nome com base em sua interpretação do que celebrariam, contudo no geral o tema estava em comum acordo.
Todavia, as novas tribos de Nomastar decidiram em unanimidade acrescentar em suas nomenclaturas tribais a expressão “Telos” precedendo-as com a finalidade de homenagear seu ex-amo e novo irmão Nomastar.

A tranquilidade, harmonia e desenvolvimento reinavam em demasia naquele pequeno reino isolado, até que em meados de 1005 á 1000 AEC uma nova onda de catástrofes, semelhante á primeira que os expulsaram de seu antigo reino, incutiu no coração dos nomasterianos que o tempo para abandonarem “a grande pecadora e fonte da ira divina” (referindo-se á Númaior) havia chegado e que uma busca por um novo continente era da mais alta prioridade. Em especial por que Nomastar Telos, o símbolo em carne e osso de tudo o que aquele povoado representava e significava, perdeu sua vida durante uma dessas supostas demonstrações da desaprovação do(s) deus(es).

Os nomasterianos responsáveis pela confirmação da existência de Trália e da rota marítima segura que tornaria possível alcançarem o destino sem perderem o rumo e em tempo satisfatório, autoproclamados Família Quitébius, consentiram com o restante da nação em omitir nos registros sobre á qual das tribos pertenciam, pois não desejavam enaltecer nenhuma tribo sobre outra e sim que o mérito pelo feito extraordinário deles fosse repartido igualmente entre “Telos de Protar”, “Telos de Laian” e “Telos de Níbia”.

Tanto a data da morte quanto o paradeiro dos restos mortais de “Nomastar Telos, O Senhor de Trália” (título emérito que o definiria posteriormente) jamais foram encontrados em registro histórico algum até o dia de hoje.

© 2019 por Masopias.

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